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O cigarro e o cinema: quando um gesto dizia o que a censura não deixava mostrar

Há um gesto que o cinema clássico repetiu tanto que ele deixou de ser só um gesto: acender um cigarro, soltar a fumaça devagar, olhar o outro através dela. Antes de qualquer fala, antes de qualquer toque, aquilo já era a cena. Em décadas em que o desejo não podia ser mostrado diretamente na tela, o cigarro se tornou um dos recursos mais eficientes para dizer o que a censura não deixava dizer.

O motivo, no fundo, era a censura

Entre 1934 e 1968, o cinema estadunidense viveu sob o chamado Código Hays, um conjunto de regras de autocensura que a própria indústria de Hollywood criou para evitar uma censura ainda mais dura por parte do governo. O nome vem de Will H. Hays, um político e advogado republicano de Indiana, que havia sido presidente do Comitê Nacional Republicano e diretor-geral dos Correios dos Estados Unidos antes de assumir, em 1922, a presidência da associação que reunia os estúdios de Hollywood. Era presbiteriano praticante e tinha fama de conservador. Sua contratação para “limpar” o cinema foi, em boa parte, uma jogada de relações públicas: a indústria havia sido sacudida por escândalos envolvendo suas estrelas e enfrentava ameaças reais de censura federal, e colocar um nome de credenciais morais inquestionáveis à frente da regulação era uma forma de evitar que o próprio governo tomasse essa frente.

As regras que levaram seu nome eram específicas e, vistas hoje, quase cômicas: beijos não podiam durar mais de três segundos, não podiam ser feitos de boca aberta, e qualquer cena que “estimulasse as emoções mais baixas” do público estava proscrita.

O resultado não foi um cinema sem desejo. Foi um cinema obrigado a ficar mais inteligente. Diretores como Alfred Hitchcock, Billy Wilder e Howard Hawks passaram a contar exatamente o que queriam, só que por meio de sugestão: sombras, cortes, objetos, olhares. Hitchcock resolveu o limite dos três segundos em “Quando Fala o Coração” (1946) fazendo Cary Grant e Ingrid Bergman se beijarem, se separarem para dizer qualquer trivialidade, e se beijarem de novo, repetidas vezes, driblando o cronômetro sem nunca quebrar a cena.

Arte no Caos beijo

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O cigarro como linguagem do implícito

O cigarro nasceu desse mesmo impulso. Ele virou um substituto visual perfeito para tudo que não podia ser filmado de frente. O cigarro compartilhado entre dois personagens insinuava intimidade física sem mostrar nada. A tragada lenta, no meio de um silêncio, comunicava desejo, ansiedade ou derrota sem precisar de uma linha de diálogo. O gesto de aceitar fogo da mão de alguém já era, em si, uma cena de aproximação.

Um dos exemplos mais bonitos desse vocabulário está em “As Neves do Kilimanjaro” (1952). Ava Gardner e Gregory Peck quebram a tensão de um quase beijo de um jeito que só o cinema clássico sabia fazer: acendem os cigarros usando a ponta de um no outro, em vez de se beijarem de fato. O beijo não está lá, mas está implícito ali, na chama compartilhada. É a cena que resume bem o que esse texto quer mostrar: o implícito tomando o lugar do explícito e, ainda assim, dizendo tudo.

As Neves de Kilimanjaro 1952

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As Neves de Kilimanjaro 1952 1 2

As Neves de Kilimanjaro 1952

De código implícito a personagem

Com o tempo, esse recurso deixou de ser só uma saída para a censura e se tornou linguagem própria do cinema, um vocabulário visual que atravessou o cinema negro estadunidense, a nouvelle vague francesa e o cinema de autor europeu. Em alguns filmes, o cigarro funciona quase como um personagem: marca o ritmo de uma cena, ocupa o silêncio entre duas falas, dá às mãos dos atores algo para fazer enquanto a tensão sobe.

Foi assim em “Acossado” (1960), de Jean-Luc Godard, em que o cigarro na boca de Jean-Paul Belmondo é parte da própria atitude do personagem. Foi assim em “Persona” (1966), de Ingmar Bergman, onde a fumaça participa da composição visual tanto quanto os rostos das atrizes. E é assim em filmes mais recentes que também entram nessa galeria, onde o cigarro continua aparecendo nos momentos de maior tensão afetiva entre os personagens, décadas depois de o Código Hays ter deixado de existir.

Um símbolo de época, não um convite

Vale uma ressalva. Revisitar essas cenas hoje é um exercício de olhar para a linguagem do cinema, não uma celebração do hábito em si. O cigarro, hoje, carrega um peso que o cinema clássico não tinha como antecipar. O conhecimento médico sobre os danos do tabaco mudou completamente a forma como esse gesto é lido, e isso também é parte da história. Olhar para essas cenas é entender como o cinema, em outro momento, transformou uma restrição em estética. Não é indicar que esse símbolo devesse se repetir como está.

Fica, de qualquer forma, a curiosidade de linguagem: poucos objetos tão simples carregaram tanto peso dramático quanto aquele cigarro acendendo no escuro de uma sala de cinema.

Veja abaixo a galeria de cenas que separamos, de “Acossado” a “Moulin Rouge”, passando por “Os Sonhadores”, “Persona” e “Pulp Fiction”, um panorama de como esse gesto atravessou décadas e estilos de cinema completamente diferentes.

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