Tem uma voz que Pedro Almodóvar não consegue — e não quer — deixar fora de seus filmes. Rouca, rachada, dolorosamente lenta. É a voz de Chavela Vargas, e ela está de volta às telas em “Amarga Navidad” (“Natal Amargo” no Brasil), o mais novo filme do diretor espanhol, estreado em 2026.
Chavela é descrita pela crítica como a “musa” do cineasta, e não é a primeira vez. O conto que inspirou o filme, publicado na coletânea autobiográfica O Último Sonho (2023), já era marcado pela presença da cantora. Antes disso, foi a voz de Chavela que embalou cenas inteiras de Frida (2002), de Julie Taymor, e de outros clássicos do próprio Almodóvar — sempre como quem canta uma dor que conhece de dentro.
Mas Chavela Vargas é muito mais do que uma trilha sonora emprestada para os dramas dos outros. Ela viveu o próprio drama — e um dos capítulos mais marcantes dele foi ao lado de Frida Kahlo.
Quem foi Chavela Vargas
Nascida Isabel Vargas Lizcano, em 17 de abril de 1919, na Costa Rica, Chavela se mudou ainda jovem para o México — o país que ela escolheria para sempre como seu. Cantou nas ruas antes de profissionalizar a carreira nos anos 1950, com a ajuda do compositor José Alfredo Jiménez, em um gênero, a ranchera, que até então era território quase exclusivamente masculino.
Vestia-se como homem quando isso era motivo de escândalo. Fumava charuto, bebia tequila sem pedir licença e carregava arma. Sua imagem era tão forte quanto sua voz — e sua voz gravou mais de 80 álbuns ao longo da vida.
Mas talvez a coisa mais corajosa que Chavela fez não tenha sido em um palco: foi assumir publicamente sua homossexualidade aos 81 anos, em uma época e em um meio artístico onde isso ainda custava caro. Chavela Vargas nunca escondeu seu lesbianismo — ela simplesmente não fazia disso um espetáculo, até decidir que era hora de fazer.
O encontro com Frida Kahlo
A história é contada por Chavela em primeira pessoa no documentário Chavela (2017): ela foi levada a uma festa na casa de Frida Kahlo e Diego Rivera por um amigo pintor. “Fue un deslumbramiento al verle la cara, los ojos”, ela relembrou — foi um deslumbramento ver o rosto, os olhos de Frida.
A atração foi imediata e, segundo relatos, mútua. Existe uma carta, preservada no acervo da Casa Azul (hoje museu dedicado a Frida, na Cidade do México), em que a pintora escreve ao amigo Carlos Pellicer sobre aquele primeiro encontro: “Hoy conocí a Chavela Vargas. Extraordinaria, lesbiana, es más, se me antojó eróticamente.”
Chavela passou a morar na Casa Azul, dividindo o espaço com Frida e Diego. Ela descreveu esse período como um dos mais felizes — e mais complicados — de sua vida: feliz pela proximidade com Frida, complicado por ter de compartilhá-la com o casamento aberto e turbulento com Diego Rivera. Anos depois, já adulta e dona da própria história, Chavela optou por destruir a maior parte das cartas que recebia de Frida — um gesto de quem talvez quisesse guardar aquele amor só para si, longe de olhos curiosos.
As canções que carregam essa história
Não é coincidência que duas das canções mais marcantes de Chavela Vargas falem diretamente sobre desejo entre mulheres.
“Macorina”, gravada por Chavela em 1961, é baseada em um poema sobre uma mulher cubana real, conhecida por sua vida não convencional. A canção, com seu verso icônico “Ponme la mano aquí, Macorina”, se tornou o que muitos descrevem como um verdadeiro hino lésbico — décadas antes de qualquer hino lésbico ser pauta de conversa pública.
“La Llorona”, talvez sua interpretação mais célebre, ecoa até hoje — está na trilha de Frida (2002), em que a própria Chavela aparece como convidada especial, e até no filme infantil Coco, da Pixar. A canção fala de dor, de busca, de um amor que não se resolve — e na voz de Chavela, ganha um peso quase autobiográfico.
Por que isso ainda importa em 2026
Almodóvar não escolheu Chavela Vargas para sua trilha sonora por acaso, e o público não voltou a procurar por ela só por nostalgia. A vida de Chavela é, ela mesma, um roteiro: uma mulher que driblou o México conservador do século 20, que amou quem quis amar, que vestiu o que quis vestir e que só decidiu contar sua própria versão da história quando teve vontade — não quando o mundo exigiu.
Frida Kahlo, claro, já é assunto recorrente aqui no Arte no Caos. Se você ainda não leu, vale a pena revisitar nosso outro texto sobre essa relação: Frida Kahlo, Chavela Vargas: amor intelectual.