“Deixe-me ir, preciso andar…”
Poucos versos dizem tanto com tão pouco.
Preciso Me Encontrar, composta por Candeia e eternizada na voz de Cartola, é daquelas músicas que parecem caminhar sozinhas pela memória do Brasil. Lançada no álbum Cartola II, de 1976, a canção ganhou novas camadas ao aparecer em uma das cenas mais bonitas e dolorosas de Cidade de Deus.
Lançado em 2002, Cidade de Deus é um dos filmes brasileiros mais aclamados e reconhecidos mundo afora. Dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, o longa acompanha a formação da comunidade Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, e mostra como violência, ausência do Estado, racismo, infância interrompida e disputa por poder atravessam a vida de quem cresce ali.
A história é conduzida pelo olhar de Buscapé, um jovem que tenta encontrar outro caminho em meio ao caos. E é justamente aí que a música se conecta ao filme: enquanto a narrativa mostra personagens tentando escapar de destinos quase impostos, Preciso Me Encontrar fala de partir, respirar, procurar uma saída por dentro e por fora.
“Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar…”
Na cena em que a canção aparece, perto do final do filme, a música conduz um dos momentos mais marcantes da narrativa. A sequência é linda justamente porque não tenta explicar demais. Ela deixa a imagem, o silêncio e a voz de Cartola fazerem o trabalho mais difícil.
A música guia a cena como se tivesse nascido para ela. Ou como se a cena tivesse esperado décadas por aquela canção.
A melodia melancólica não suaviza a violência do filme. Faz algo mais profundo: revela a humanidade que ainda insiste em existir ali. Enquanto tudo parece se romper, Preciso Me Encontrar abre uma fresta de luto, beleza e desejo de liberdade.
Há também uma ironia dura por trás de Cidade de Deus. O filme alcançou projeção internacional, recebeu indicações ao Oscar e virou um marco do cinema nacional. Ao mesmo tempo, sua força veio, em grande parte, da presença de atores não profissionais vindos de favelas do Rio, alguns da própria Cidade de Deus. Pessoas que deram corpo, rosto e verdade à obra.
Mas visibilidade não é o mesmo que transformação social.
Anos depois, algumas trajetórias do elenco mostraram que participar de uma produção tão impactante não significou, necessariamente, romper com a precariedade. Essa contradição atravessa o próprio filme: a arte revela o mundo, mas nem sempre consegue mudar as estruturas que denuncia.
Cartola também conheceu a espera. A fama demorou a chegar. O reconhecimento público veio tarde para um dos maiores nomes da música brasileira. Mas há vozes que não precisam chegar cedo para permanecer. A dele atravessou o tempo e ainda reverbera.
Candeia escreveu uma busca. Cartola deu corpo a ela. Cidade de Deus encontrou nessa canção um respiro trágico e bonito: a vontade de ir, mesmo quando o mundo parece não deixar.
No caos, às vezes, a arte não explica.
Ela só segura a nossa mão.
@artenocaos “Deixe-me ir, preciso andar…” Em Cidade de Deus, Preciso Me Encontrar, de Candeia na voz de Cartola, guia uma das cenas mais marcantes do cinema brasileiro. A música toca perto do final e parece ter nascido para aquele momento. É luto, beleza e desejo de liberdade no meio do caos. Cartola demorou a ser reconhecido, mas sua voz ainda reverbera. CidadeDeDeus PrecisoMeEncontrar Cartola Candeia CinemaBrasileiro ArteNoCaos